EVERTON LOPES BATISTA
DE SÃO PAULO

Qual foi a última vez que você começou algo do zero? Quantos estilos diferentes de música você escuta? Por quais gêneros literários você já se aventurou?

Para professores de cursos voltados para a criatividade e pesquisadores do tema, ações como essas são o ponto de partida para “abrir a cabeça” e ter ideias novas.

O compositor Alexandre Travassos, 46, na Praça das Artes, em São Paulo

“Quanto mais coisas eu faço, maior é o repertório e a biblioteca que eu tenho para consultar quando preciso resolver algum problema com uma solução diferente”, afirma Felipe Anghinoni, publicitário e um dos fundadores da escola Perestroika de atividades criativas.

O local oferece aulas para quem quer soltar a imaginação. A metodologia privilegia a prática e a informalidade para tornar o ambiente propício à inovação, com atividades de pintura, ilustração, teatro e música.
Os cursos duram de uma semana a três meses e custam de R$ 700 a R$ 4.500.

Para Fernando Suzuki, publicitário e co-fundador da escola internacional de negócios MBI (Master of Business Innovation), que tem cursos focados em inovação, a criatividade se manifesta por meio da capacidade de relacionar informações desconectadas e encontrar um sentido para a conexão.

“Para criar relações novas é preciso ter uma boa percepção e enxergar o que ninguém havia visto”, afirma.

Começar uma atividade diferente pode ser um bom impulso, segundo o neurocientista Fabrício Pamplona, pesquisador do Instituto D’Or.

“Experimente um curso completamente novo ou uma viagem a um país estrangeiro do qual você pouco sabe. Coloque-se mais na posição de aprendiz”, recomenda.

Para ele, a criatividade vem com muita prática e insistência. “Primeiro é preciso esgotar todas as possibilidades mais óbvias para só então chegarem as ideias originais”, diz Pamplona.

Ainda de acordo com o neurocientista, um local de trabalho onde os funcionários têm mais autonomia e existem espaços de socialização é mais propício para o surgimento de novas ideias.

“Levante, saia do seu lugar, faça mais pausas, faça perguntas, mantenha a mente livre, quebre a rotina. Esteja aberto à exploração, mas se permita explorar sem julgamento”, afirma.

Segundo ele, a leitura tem um papel particularmente especial no desenvolvimento de ideias novas. “O livro estimula ideias originais, porque o leitor vira co-autor da história enquanto gera imagens só suas”, explica.

EM AÇÃO

Ser criativo é uma demanda crescente em empresas de diferentes segmentos. A lista de companhias mais inovadoras de 2016, divulgada pela revista americana “Fast Company”, de inovação e tecnologia, incluiu diversos nomes de fora do mundo digital, como restaurantes e até uma rede de farmácias.

A educação no formato atual, no entanto, falha em fornecer as ferramentas necessárias para a inovação, dizem os especialistas.

Para Maurício Tortosa, diretor da Ebac (Escola Britânica de Artes Criativas), a formação de um profissional criativo deve ir além do pensamento crítico. É preciso também conhecer questões burocráticas dos negócios para colocar ideias em ação.

Foi baseada nesse princípio que a Ebac incluiu a disciplina de empreendedorismo criativo em todos os cursos que oferece.

“Empreender também é um ato criativo”, afirma Bob Wollheim, professor da disciplina. “O objetivo é mostrar as competências que o aluno precisa e, assim, ampliar seu repertório”, completa.

O artista visual Daniel Malva, 39, na galeria de arte Mezanino, em São Paulo

COMBUSTÍVEL

Profissionais que trabalham com criação em áreas como artes visuais e música consideram a curiosidade, o constante aprendizado e o contato com diferentes áreas os principais combustíveis para manter a cabeça fértil.

Daniel Malva, 39, artista visual e fotógrafo que mora em São Caetano (Grande São Paulo), conta que passou por cursos como biologia e engenharia química antes de fazer graduação em fotografia.

“Gosto de estudar e, quando faço pesquisa para um novo trabalho, incluo o conhecimento de todas as áreas pelas quais já passei. Até estudar matemática faz parte do meu processo criativo”, diz.

Ele cria cenários, fotografa-os e usa técnicas especiais para revelar a imagem. Segundo ele, sonhos o ajudam a fazer as montagens.

“Fotografo todos os dias, experimentando diferentes filmes, lentes e câmeras. Vou construindo um arquivo com as informações técnicas. Assim, quando aparecer uma ideia, vou saber qual a melhor forma de executar”, diz.

O compositor de música de orquestra Alexandre Travassos, 46, se formou clarinetista, mas, diz, aprendeu composição por conta própria.

“O que um compositor coloca na partitura são fragmentos e notas de tudo que ele já ouviu na vida”, afirma Travassos, que já teve suas obras tocadas pela Banda Sinfônica do Estado de São Paulo e pela Orquestra Experimental de Repertório, ligada à Fundação Theatro Municipal de São Paulo.

“Quando escrevo, estou mobilizando todas as minhas referências”, afirma. Segundo ele, as inspirações têm diversas fontes. “Pode ser uma música folclórica que ouvi em um outro país ou uma cor que associo a algum som e tento converter em melodia.”

A leitura também é muito importante nesse processo. “A música é uma narrativa em outra língua”, diz.

Fonte: Folha

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